Pesquisa da Unesp Araraquara descobre produção de biocombustível a partir de planta aquática


Estudo da FCF integra projeto de economia circular reconhecido pela ONU e busca matrizes energéticas mais sustentáveis. Lentilha d’agua é inserida em tanques de pesca com o objeto de limpar os resíduos de piscicultura
Carlos Takashi/Divulgação
Uma pesquisa realizada na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp, em Araraquara (SP), apresenta uma solução promissora ao explorar a produção de biocombustível a partir da lentilha-d’água, uma planta aquática normalmente encontrada em lagos e rios.
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O trabalho faz parte de um amplo projeto de pesquisa em economia circular e biotecnologia, que foi premiado internacionalmente e recebeu reconhecimento da ONU durante a COP26.
“O professor Levi já havia utilizado a lentilha-d’água em uma pesquisa anterior focada na biorremediação, um processo no qual a planta absorve poluentes da água. A partir da biomassa residual gerada neste estudo, surgiu a oportunidade de aproveitá-la para desenvolver biocombustíveis, conectando os dois processos sob o conceito de economia circular”, explicou o pesquisador Carlos Takashi.
O pesquisado é autor do trabalho de dissertação de mestrado “Análise de Potencial de Produção de Biocombustíveis Utilizando a Biomassa de Lentilha D’água (Lemna minor)”, defendido em setembro, com orientação do professor Levi Pompermayer Machado.
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Duas etapas
O trabalho envolveu duas etapas: a caracterização da composição química da planta aquática e a exploração do seu potencial para biocombustíveis.
“Nossa intenção foi propor soluções que possam ser facilmente implementadas nas propriedades rurais. Por isso, optamos por não seguir abordagens de alta tecnologia, mas sim desenvolver um biocombustível com o menor número de processos possível, permitindo que pequenos agricultores reutilizem o resíduo da planta para gerar energia”, complementou Levi.
A pesquisa de Carlos também foi integrada ao projeto Rota 2030, um programa do governo federal que fomenta a pesquisa e o desenvolvimento de inovações com impacto no setor automotivo, especialmente em biocombustíveis.
Coordenado pelo professor Rodrigo Costa Marques, do Instituto de Química (IQ) da UNESP, em Araraquara, o projeto envolve diversas unidades da universidade, incluindo as de Ilha Solteira, Registro e Sorocaba, além do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
A colaboração entre instituições resulta em um esforço conjunto para promover soluções sustentáveis no campo dos biocombustíveis.
“É um verdadeiro trabalho em rede. Essas pesquisas colaborativas, financiadas por grandes editais, são essenciais para integrar o conhecimento acadêmico, permitindo a interação entre docentes de diferentes campi. Essa cooperação nos deu acesso a laboratórios e infraestrutura fundamentais para o avanço dos projetos”, destacou Levi.
Pesquisa
A pesquisa começou com a coleta de biomassa de lentilha-d’água em uma lagoa de tratamento de efluentes na região de Registro (SP), onde o professor Levi já havia implementado projetos de biorremediação.
Após a coleta, a biomassa foi submetida a um pré-tratamento para obter um substrato, ao qual foram adicionados microrganismos capazes de converter a biomassa da lentilha-d’água em biogás.
O composto final foi colocado em frascos, onde as amostras foram monitoradas quanto à produção de metano e hidrogênio.
A quantidade de gases gerados foi medida com equipamentos especializados, em diferentes momentos, sendo que a produção de metano alcançou 78% e a de hidrogênio atingiu 42%, em relação ao total de gases emitidos em suas respectivas análises, evidenciando a eficiência do processo.
A planta aquática é originária da Europa, mas está inserida no Brasil e costuma crescer em lagos
Carlos Takashi/Divulgação
Potencial para sistemas agrícolas e psicultura
O pesquisador da Unesp defende que o sistema tem grande potencial para ser aplicado em pequenos sistemas agrícolas e de piscicultura, aproveitando os resíduos da lentilha-d’água para gerar energia localmente.
“O interessante desse projeto é que ele pode ser facilmente implementado em áreas rurais, promovendo a autossuficiência energética dos produtores. Acredito que o biometano pode ser utilizado em geradores de energia elétrica, oferecendo uma solução de baixo custo para essas comunidades”, disse o docente.
Esquema representativo dos processos realizados a partir da lentilha d’água
Levi Pompermayer Machado/Divulgação
Reconhecimento internacional
O trabalho de Carlos integra um projeto de economia circular coordenado pelo professor Levi, que foi reconhecido pela ONU durante a COP26 como uma proposta inovadora por criar meios de subsistência resilientes na produção alimentar em pequena escala.
O projeto também recebeu o Prêmio de Tecnologia Social da ONU em 2023, que valoriza inovações aplicáveis a comunidades em desenvolvimento, baseadas em recursos locais.
O projeto conta com o apoio financeiro da Mosaic Fertilizantes, que, por meio do edital Água, financia iniciativas voltadas à gestão eficiente da água, incluindo a recuperação de nascentes e tecnologias de tratamento de água.
“Já fomos aprovados cinco vezes neste edital e estamos apenas começando. A pesquisa do Carlos foi um passo fundamental nesse processo, e temos certeza de que ainda veremos muitos desdobramentos desse trabalho”, afirmou Levi.
Segundo o docente, a ideia é trabalhar no aprimoramento da pesquisa e desenvolver uma startup de base científica e tecnológica para implementar modelos de produção de metano, especialmente em propriedades rurais. “Em vez de apenas licenciar a tecnologia para empresas, queremos que os estudantes se tornem empreendedores e explorem comercialmente esses negócios”, relata.
A equipe também planeja continuar explorando novas frentes, como o uso da planta para produção de biofertilizantes e ração animal, além de ampliar as tecnologias de biorremediação.
Os projetos vêm sendo desenvolvidos com a abordagem para inovação e o empreendedorismo de base científica e tecnológica na incubadora Aquário de Ideias (https://aquariounesp.com).
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